O verdadeiro custo da comida barata na Alemanha

A cadeia alemã de supermercados de baixo custo Aldi abriu recentemente seu primeiro bistrô no moderno Media Park, sede de cerca de 250 empresas em Colônia. Construído a partir de contêineres reutilizados, o restaurante oferece aos executivos uma refeição de três pratos por apenas 8 euros.

O bistrô Aldi se prepara para visitar várias cidades alemãs – e se a moda pegar, analistas acreditam que o gigante do varejo pode começar a competir de forma agressiva com preços de restaurantes, assim como de outros supermercados.

Os alemães desfrutam de alguns dos alimentos de menor custo no mundo, de acordo com dados do governo. Modelos de negócios de supermercados de preços baixos permitem que eles sejam de 10% a 20% mais baratos que outras redes.

Mas cientistas da Universidade de Augsberg advertem que se os custos reais associados à agricultura industrial moderna fossem incluídos, os preços seriam muito maiores.

Aldi: expandindo-se para o ramo dos bistrôs

Tobias Gaugler estudou os impactos ambientais do nitrogênio, utilizado pelos agricultores em diversas formas para alcançar melhores colheitas na Alemanha.

“Há muito nitrogênio, tanto nos fertilizantes minerais quanto no estrume, na agricultura alemã, e isso causa problemas para o ecossistema e a saúde humana”, diz.

Conforme o esperado, menos nitrogênio é produzido pela agricultura orgânica em comparação com a agricultura convencional. Os métodos agrícolas modernos se mostraram muito mais intensivos nos recursos, concluiu o estudo. Mas os custos de descontaminação ambiental não são refletidos nos preços pagos pelos consumidores.

Preços seriam 10% mais altos

“O pior é aquele alimento que é produzido convencionalmente por ou a partir de produtos de origem animal… [que] deveria ser cerca de 10% mais caro do que agora”, diz Gaugler.

Combinada com a poluição do nitrogênio, a agricultura industrial é responsável pela poluição do ar e a degradação do solo, sem falar no impacto dos antibióticos utilizados em animais.

Deutschland Lidl-Filiale in Bonn (DW/N. Martin)

Preços de supermercados de baixo custo não refletem custas do impacto ambiental da produção industrial

Grupos ambientalistas dizem que, se as múltiplas consequências nocivas da produção industrial de alimentos fossem incluídas – desde embalagens plásticas até impactos no bem-estar dos animais –, os preços dos alimentos provavelmente aumentariam de forma substancial.

Ativistas agora pressionam o governo alemão por garantias de que os custos ocultos, como a remoção de nitratos da água potável, sejam incluídos no preço final da compra.

A Política Agrícola Comum da União Europeia (CAP) é em grande parte culpada pelo excesso de produção, avaliam os ambientalistas, o que também pressiona para baixo os preços dos alimentos. Eles querem reformas.

O CAP foi modificado a fim de direcionar parte de seus lucros à agricultura ecológica. Mas alguns grupos dizem que isso não é o suficiente.

Ativistas receiam, contudo, que, em meio à perseguição por lucros cada vez maiores, o domínio das cadeias de supermercado de baixo custo não possa ser abrandado.

Outros esperam que o crescente mercado de “slow food”, que inclui mantimentos produzidos localmente por pequenos agricultores, terá um crescimento exponencial.

Deutschland Bauern- und Wochenmarkt in Köln (DW/N. Martin)

Cerca de 70% dos produtos vendidos no mercado de agricultores de Colônia é produzido na região

O mercado de agricultores de Colônia tem bastante movimento quase todos os dias, e seus fregueses estão dispostos a pagar a mais por produtos com menor impacto ambiental.

“Não é muito mais, apenas de 15 a 20 euros por semana”, diz Linda, cliente regular do mercado e que prefere comprar frutas e legumes que sabidamente sejam provenientes de fazendas próximas.

Outro cliente, Stefan, acusa os supermercados de vender “90% de alimentos enlatados” e diz saber que os produtos do mercado são “frescos” e que a “qualidade é melhor”.

Agricultores de mercados locais apoiam a ideia de reduzir a diferença de preços entre produtos convencionais e orgânicos, pois compreendem a intensa pressão que as redes de baixo custo exercem para que eles reduzam os preços.

“Se [agricultores] puderem obter um preço melhor, eles serão estimulados a produzir outros vegetais”, diz o funcionário do mercado Adam Jay.

Ele afirma que os agricultores estão sendo forçados a sair do mercado pela produção em massa, e muitos deles só podem ser salvos pelo movimento “slow food”.

Passar a conta para o poluidor?

Gaugler, que escreveu o relatório sobre o nitrogênio, afirma que os supermercados não devem receber toda a culpa. Ele ressalta que, ao manter os preços dos alimentos baixos, eles estão respondendo à demanda dos consumidores e à pressão política.

Mas ele vê políticos cada vez mais dispostos a adotar um “princípio do poluidor-pagador”, que veria os custos dos alimentos mais refletidos sobre o impacto ambiental da produção.

“Há muito lobismo impedindo mudanças no sistema, especialmente a curto prazo”, afirma Gaugler. “Mas os motores políticos serão acionados – especialmente pelo Acordo de Paris, e é apenas uma questão de tempo até que as regras e regulamentos sigam”.

Grupos ambientalistas dizem que os preços mais altos dos supermercados também forçam os consumidores a reavaliar seus gastos com as compras semanais e encontrar formas de reduzir o desperdício de alimentos – atualmente estimado em 7 milhões de toneladas por ano apenas na Alemanha.

Embora isso não seja excelente para os lucros de redes como Lidl e Aldi, isso faria muito bem para o meio ambiente.

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